“Caligrafias” de Natalia Barros

Caligrafias. Natalia Barros. Ofício das palavras Editora. 2012.

Caligrafias. Natalia Barros. Ofício das palavras Editora. 2012.

Anjo caído

Hoje sangrou menos, lembro.
Está passando – quase esqueço.
Devagarinho.
Olho de soslaio. Beijo a cicatriz.
Sara, dizem, antes de casar.
Mertiolate arde (de novo). Ar de cura.
Sopro, amorosamente. Doer, doeu.
Agora só dá a impressão que.

§

escuto no cântaro
a voz do rio:
– tudo passa.

(mesmo represada a água é fluida)

§

meu coração incendiado
desnudado
segue indomável

pulsa

bradando
como um louco
em meio às chamas:

– tu me amas?

Tanto

tenho pensado tanto em você
que nuvens condensam imagens no dia lento
tanto em você que invento
sinto o cabelo crescendo
ouço o teu pensamento
penso temperaturas. entranhas. fogo. vento.
tanto que sobram vírgulas
pontos. pausas. tempo.
tanto que escuto o mar
com a concha dentro

Liberdade íntima

quando não percebo o manancial
definho
perco o verdor

flor negando a florescência
feito brotar – desabrochar fora de si
numa outra época de mundo

uma espécie de outra espécie
descoisa

Oferta do dia

Na bandeja de prata, estrelas ocultam-se
sob a incendiária lua cheia.
Esse breve instante de plenilúnio,
que a ti oferto, num movimento elíptico,
logo se desinventa decrescendo.
Costuro a via láctea com a fina agulha
do presente e linhas espessas de eternidade.
Bordo no firmamento novas
constelações forjadas de luz e breu.

Natalia Barros (Santos-SP) é cantora, escritora, atriz e paisagista brasileira. Mais sobre a autora aqui.

“A noite despencou e quebrou três estrelas.”

"Gota a gota". Ana Cristina Cesar.

“Gota a gota”. Ana Cristina Cesar.

Cada busca inútil me traz uma impressão longínqua de despedaçar-se: chegou a algum lugar, afinal, pois chegamos quando nos dispomos a continuar; mas a que custo! Seria talvez mais desejável para nós, gente, não chegar, achando quem sabe um último suspiro depois de um último passo.
Cada noite que desce sobre uma espera vã traz-me à boca um gosto de vinagre, aos ouvidos um som qualquer que ensurdeça. Ninguém se disse adeus, e na ausência de luz alguém está morrendo sozinho.
Cada vez que não morremos parece-me que demos mais um passo para trás, progredimos no sentido inverso, chegamos, pois que nos levantamos para prosseguir. E nestes dias de indolência, oco, ânsia oculta, uma sensação de interminabilidade sobe, sobe, pelas veias sobe. Nada. Esta falta de segredo é uma chegada, no seu verdadeiro significado: chegada é sempre escala; ponto para respirar; pela penúltima vez, quem sabe.

Esta brisa marinha semimágica que entra tão sub-repticiamente pela janela denuncia o quê? ou liquefaz meus suspiros em mistério tátil e tácito. Meu Deus, de novo a brisa a me desalienar e desalinhar, despertando o borbulhar que o ano inteirinho pressentiu.
Suspirosa e oleosa, uma tonta. Ligo o rádio. Será que eu fui engolida inteira? Faz de conta que a minha digestão é fácil, que as grandes partes se derreteram já, que os ossos cuspidos estão arrumados, insensíveis e ressecando. Ouvi dizer, li em algum lugar: Ana é idiota. Se conspirassem contra mim, talvez eu fosse. A noite despencou e quebrou três estrelas.

Imagem e texto extraídos do livro “ana cristina cesar – poética”. Companhia das Letras. 1ª Edição. 2013. Páginas 189 e 190.

 

Poema “Querência” de Elisa Lucinda

Egon Schiele

Egon Schiele (1890 – 1918). Pintor austríaco. Expressionista.

Meu amor é absurdamente agarrado a esse tronco, meu abacate!
Toda palavra caráter,
repito,
mora aí.
Dormir no embate maravilhoso de nossas pernas
é coisa de areias desertos tesouros achados.
Meu tempo, meu falo,
sinto por você uma canção sem nome,
uma canção que lambe as bordas de dentro
e os contornos do lado,
sem parar de cantar.
Mais que te admirar,
mais que te honrar em escolha,
o que sinto por você é desejo
(não o ensinado por Maria Birolha).
Um desejo dum barro especial do qual você é feito
e que se espalha na nobreza do seu corpo.
Não na pompa mas no pampa da longa camisa de sua pele,
esse gaudério espaço onde me encontro
e onde meus poros berram mansos “é aqui, é aqui!”
Daí nunca mais sair.
Só se por motivo de aumentar o manequim da saudade,
só se por vontade de durar o eterno,
só se pelo terno acontecer do nosso amor.
Eu, como um gado,
corro esse descampado,
vaca no cio anunciando a primavera.

Me dar a ti é morar
numa árvore rara,
feito uma casa clara
com amplas e infinitas janelas.

Elisa Lucinda,
13 de março de 2001.

Poeta, atriz, jornalista, professora e cantora, nasceu ao meio-dia de um domingo de carnaval em 2 de fevereiro de 1958, na cidade de Vitória do Espírito Santo. Em 1986, mudou-se para o Rio de Janeiro disposta a seguir a carreira de atriz.

Poema extraído do livro “A fúria da beleza” de Elisa Lucinda. Editora Record. 4ª edição. 2009.

“Casca de nós” de Wender Montenegro

Poderia estar encerrado em uma casca de noz e me sentir rei de um espaço infinito…

Shakespeare, Hamlet. Segundo ato, cena 2.

Livro Casca de nós do poeta Wender Montenegro. Editora Penalux, 2012.

Livro Casca de nós do poeta Wender Montenegro. Editora Penalux, 2012.

De choros, sargaços e avencas

Chorar
chorar tão longamente
como se a infância nos regasse ainda
como se o choro contivesse em si
o instante mesmo do parto do mundo;
a ternura crescendo entre avencas
batalhando dos olhos dos homens.

Chorar longamente
como se ainda nos legasse a infância
velhos desejos, valeidades sólidas
apedrejadas pelo peso do nada.

Chorar tão longamente
até que a dor arraste para o fosso
o sal da culpa, os sargaços,
filhos do choro das pedras
e a compaixão nos conforte em silêncio.

Chorar tão longamente
as borboletas pousadas nos olhos
e um soluço líquido, incontido
arrebentando a represa das mãos.

O meu primeiro verbo foi
chorar.

 

De chuvas e vidas

Eu quero, em marços da infância,
seguir em procissão rumo à bica da igreja;
em covas de arapucas, com meu pai,
plantar pimenta e colher sabiás;
com meu avô engravidar a terra
e desfiar bisaco em pássaro de sorte.
Eu quero um formigueiro no umbigo,
cortar íngua no pé, com faca benta
e achar a voz perdida dentro da romã.
Quero a raiz dos olhos dos poetas
e das parteiras a urgência das mãos
pra partir poemas de onde escorrem vidas.

 

Wender Montenegro, nascido em Trairi-CE, terra que foi berço de Álvaro Martins (1868-1906), não é um estreante: depois da experiência no jornal literário Universo, que lançou em 2006 na cidade natal, em parceria com Chagas Conceição, publicou em 2008, pela All print Editora, de São Paulo, o livro de poesia Arestas, prefaciado por Francisco Carvalho, um dos maiores poetas do Ceará contemporâneo.

Poeta Sânzio de Azevedo

Ao poeta-passarinho

Aprendi com o anjo
e gauche gaúcho
que o verbo passar
no diminutivo
voa para sempre.

 

Cicatriz

Uma ferida fala
o doloroso e lento
idioma das esperas.

Na noite azul de oferendas
o corte no sorriso
cansado de só…

A solidão é uma cicatriz
que anda pelo corpo.

 

Abstrato em luz e medo

O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.

O Grito. Edvard Munch, 1893.

O Grito. Edvard Munch, 1893.

Edvard Munch (1863-1944). Pintor norueguês. Expressionista. Suas cores quentes, seus traços tortuosos e suas ondulações expressam as dores da alma, do corpo, da vida-quase-morte. Um grito que produz ondas e diz imperfeições, sensações que destoam, desequilibram. Munch, o personagem central, expressando o próprio desespero. O real permanece íntegro, reto, concreto.

(Leonardo Macedo)

“…sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.”

De romãs e poemas

A poesia te escolheu,
fruto verde do pé.
Semente e mistério
gomos de silêncio e dor
e uma polpa que sabe a solidão.
a alma encerrada na casca,
plena dos bagos de sol.
Florestas de sangue
Suaves rubis
Prenúncio de fuga na haste
Luz alçada aos céus.

Ali, onde germina o verso
onde o princípio é polpa
a poesia te acolheu,
fruto verde do pé,
por te saber semente
por te saber madura
nessa espessa floresta
de romãs e poemas.

Para ouvir: poema “De romãs e poemas”.

Salvador Dalí (1904 – 1989)

O nascimento de um novo homem, 1943.

O nascimento de um novo homem, 1943.

A pintura de Salvador Dalí foi criada em plena IIª Guerra Mundial. Uma crítica. A obra dar voz às dores e aos sofrimentos de um povo que vê o nascer do homem moderno.
É uma obra aberta a inúmeras interpretações e pontos de vista: o esforço, o toldo que encobre o mundo-ovo, a criança que teme mas, ainda assim, expressa a sua curiosidade. O homem que não assiste ao nascimento mas, aponta e quase ordena: vai.
O toldo foi rasgado. Há resquícios da proteção no chão e no teto – uma película que envolvia o magma. A segurança se desfez, uma bolsa rompeu e derramou o seu conteúdo. Líquido.
O novo mundo já não é mais o mesmo, seus continentes se deformam, tribos e povos tomaram rumos e formas diferentes. Uma torre de babel em ruínas. A urgência do novo que pede pra nascer, fere, desconstrói, toca, transpassa a superfície do mundo.

Leonardo Macedo

Salvador Dalí. Pintor espanhol surrealista.

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia, onde vive até hoje. Estudou literatura e sociologia ma Universidade de Cracóvia. Trabalhou por quase trinta anos na revista literária Zycie Literackie.

Wisława Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia. Estudou literatura e sociologia ma Universidade de Cracóvia. Trabalhou por quase trinta anos na revista literária Zycie Literackie.

Dois macacos de Bruegel

É assim meu grande sonho sobre os exames finais:
sentados no parapeito dois macacos acorrentados,
atrás da janela flutua o céu
e se banha o mar.

A prova é de história da humanidade.
Gaguejo e tropeço.

Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,
o outro parece cochilar –
mas quando à pergunta se segue o silêncio,
me sopra
com um suave tilintar de correntes.

 

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

 

Amor à primeira vista

Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.

É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram –
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
– mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

http://www.youtube.com/watch?v=DLYiblqTItw

 

Retornos

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe – mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
Por ora dorme, todo enroscado.

 

A curta vida dos nossos antepassados

Não eram muitos os que passavam dos trinta.
A velhice era privilégio das pedras e das árvores.
A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos.
Era preciso se apressar, dar conta da vida
antes que o sol se pusesse,
antes que a primeira neve caísse.

Meninas de treze anos gerando filhos,
meninos de quatro rastreando ninhos de pássaros na moita,
jovens de vinte servindo de guias nas caçadas –
ainda há pouco não existiam, já não existem.
Os fins da infinitude rápido se juntavam.
As bruxas ruminavam maldições
ainda com todos os dentes da mocidade.
Sob os olhos do pai o filho se tornava homem.
Sob as órbitas do avô nascia o neto.

De todo modo, não contavam os anos.
Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados.
O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu,
estendia-lhes a mão quase vazia
e a retirava rápido, como se tivesse pena.
Mais um passo, mais dois
ao longo de um rio brilhante,
que da treva emerge e na treva some.

Não havia nem um instante a perder,
perguntas a postergar e iluminações tardias
a não ser as que tivessem sido antes experimentadas.
A sabedoria não podia esperar os cabelos brancos.
Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse,
e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse.

O bem e o mal –
dele sabiam pouco, porém tudo:
quando o mal triunfa, o bem se esconde;
quando o bem aparece, o mal fica de tocaia.
Nem um nem outro se pode vencer
nem colocar a uma distância sem volta.
Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,
se há desespero, nunca é sem um fio de esperança.
A vida, mesmo se longa, sempre será curta.
Curta demais para se acrescentar algo.

Poemas retirados do livro “Wisława Szymborska [poemas]”, tradução de Regina Przybycien. Companhia das Letras. 4ª reimpressão. 2014.

 

“Querer que a literatura seja politicamente correta é querer que ela fale de um mundo ideal. Mas o mundo ideal não existe.”

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A literatura não inventa nada (exceto linguagem), apenas reordena o real, como alguém que tem habilidades para montar milhares de figuras diferentes com o mesmo lego. A imaginação age sobre o que já existe, mesmo a prospecção parte de uma ancoragem no que o real pode oferecer. Querer que a literatura seja politicamente correta é querer que ela fale de um mundo ideal. Mas o mundo ideal não existe. Quando toda a literatura estiver adestrada pelo politicamente correto e toda ela falar sobre um mundo ideal com personagens ideais que falam frases ideais não teremos mais literatura. Teremos mais um tipo de religião.

Adriane Garcia

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